Nº 387

 

JUNHO-2005

 

O ÁLBUM DO SÍRIUS

No dia 17 de Setembro de 1980 apresentei-me no Museu de Marinha e comecei a escrever um diário. Um diário técnico, onde passei a registar todos os acontecimentos que, segundo a minha avaliação, poderiam ajudar-me nesta nova actividade. Nele escrevi, não só assuntos ligados à vida do Museu como, especialmente, as informações que ia tendo de pessoas que possuíam ou sabiam onde se encontravam peças possíveis de um dia ser incorporadas nas suas colecções.

Capa e contra-capa do álbum do Sírius exibindo as magníficas ferragens.

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Este diário foi, e continua a ser, um modo eficaz para me fazer lembrar a história desse belo museu instalado no Mosteiro dos Jerónimos, porque a memória – levei tempo a perceber – é duplamente traiçoeira, principalmente porque desaparece sem deixar rasto, o que é mau.
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Todavia, pior ainda é quando a lembrança das coisas ou das pessoas, ou de episódios que com estes se passaram, devido a mecanismos que não consigo entender, se deturpa, levando-nos a alterar a verdade sem, todavia, nos apercebermos. Portanto, e estou a repetir-me, um diário é um precioso instrumento de trabalho que muito me tem ajudado.
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O leitor que me perdoe este longo intróito quando, o que lhe quero dizer é que nesse diário, na data de 12 de Maio de 1983, escrevi o seguinte:
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“O Almarjão tem um álbum do palhabote Sírius, com um bela encadernação exibindo as armas reais. Quem nos deu esta informação foi o comandante Roque Martins, que temos de apanhar, pois é uma pessoa muito interessada  pelos aspectos culturais. É a segunda vez que aqui o referimos”.
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O álbum não veio para o Museu porque o senhor Almarjão, proprietário da Livraria Histórica e Ultramarina e que também é coleccionador, não quis desfazer-se da peça. Curiosamente, foi o mesmo Roque Martins, que não chegou a ir para o Museu, mas que hoje desempenha as funções de Director desta Revista, e agora, passados que foram 22 anos daquela primeira notícia, me desafiou para rever o álbum do Sírius e, sobre ele, escrever umas linhas.
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É evidente que, para falarmos do álbum temos, antes de mais nada, dedicarmos algumas linhas a D. Luís e, naturalmente, àquela real embarcação.
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Luís Filipe Maria Fernando Pedro de Alcântara António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco d’Assis João Augusto Júlio Volfrando Saxe Coburgo Gotha de Bragança e Bourbon, que nasceu em 31 de Outubro de 1833, seria rei de 1861 a 1889 e – o que muito nos orgulha – oficial de Marinha e, mais, comandou navios.

Fotografia do Rei D. Luís sentado numa das cadeiras "Pillement" que se encontram hoje no Palácio da Ajuda.

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A sua vida militar podemos dizer que começou naquele dia de 23 de Outubro de 1846, quando na Sala do Risco, estando formada a Companhia de Guardas-Marinhas, entraram Sua Majestade a Rainha D. Maria II, acompanhada por D. Fernando e os príncipes D. Pedro e D. Luís. Ainda sem treze anos feitos, mas trajando o uniforme de aspirante de marinha, D. Luís é apresentado por Sua Majestade ao então director interino da Escola Naval e comandante da Companhia de Guardas-Marinhas, o 1º tenente Joaquim José Gonçalves de Matos Correia, afim de ser reconhecido e alistado. Na frente da Companhia, o comandante leu a Carta Régia que fazia de D. Luís guarda-marinha da Armada Nacional. Depois, alguns dos mais novos aspirantes, aos quais se associou o recentemente promovido guarda-marinha, entraram no navio modelo Paciência e começaram a subir à enxárcia de estibordo do mastro do traquete. Foi quando Sua Majestade a Rainha não resistiu e disse: “Luís, anda para baixo!”
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Assim se iniciou a carreira fulgurante deste oficial que foi 2º tenente em 1851, capitão-tenente em 1854, capitão-de-fragata dois anos depois, e capitão-de-mar-e-guerra em 1859, com a idade de 20 anos.
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Entretanto, já em 1857, assumindo as funções de comandante do brigue Pedro Nunes, faz cruzeiro na costa de Portugal e vai a Gibraltar. É indispensável esclarecer que a natural inexperiência de D. Luís foi sendo compensada, nas suas funções de comando, pelo grande saber do seu mentor naval, o capitão-de-mar-e-guerra Sérgio de Sousa. No ano seguinte, sendo capitão-de-fragata, é designado comandante da corveta Bartolomeu Dias, viaja até à Madeira e os Açores, vai a Inglaterra, concorre com as esquadras aliadas a Tanger e faz uma expedição a Angola. Em Setembro de 1861, na companhia da Estefânia, vai transportar a Antuérpia sua irmã Antónia e o príncipe Leopoldo Hehenzollern Sigmaringen, com quem aquela princesa se casou. Tendo notícia que o príncipe D. Fernando, seu irmão, se encontra doente, entrega o comando do navio ao imediato e regressa a Lisboa no vapor Oneida. Além de D. Fernando,  falece também, a 11 de Novembro, o seu outro irmão D. Pedro V. D. Luís é proclamado Rei de Portugal.
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No nosso país só aparecem, na década de 1850, notícias respeitantes a competições com barcos de recreio, sendo 1856, a data da criação da Real Associação Naval, a mais antiga instituição deste tipo existente na Península Ibérica. À primeira assembleia geral desta associação presidiu o Príncipe D. Luís, o que mostra o interesse do futuro rei por esta actividade desportiva.
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Os proprietários das embarcações de recreio eram pessoas abastadas e muitas delas próximas da Casa Real. Algumas delas oferecem a D. Luís o iate que este crismou de Prenda e que foi desenhado segundo o risco da famosa embarcação  americana America (que deu origem à célebre regata com o mesmo nome, que ainda se disputa), ao passar por Lisboa, na sua segunda viagem à Europa.

Elementos decorativos respeitantes ao Sírius - monograma e distintivo.

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Com as linhas desta embarcação, D. Luís teve o Veloz que, em 2 de Setembro de 1858, participou, em Paço de Arcos, numa regata organizada pela Real Associação Naval que, numa das provas, tinha como recompensa, um prémio oferecido pelo Soberano.  Alguns anos mais tarde, precisamente em 1876, D. Luís encomenda o Sírius, que foi construído no telheiro das galeotas reais, sob a orientação do então capitão tenente Carlos de Sousa Folque Possolo, seu oficial às ordens.
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Logo na primeira regata em que participou o Sírius revelou as suas excelentes qualidades náuticas ao ponto de passar a dar abonos a outras embarcações, chegando mesmo a não participar por ter um andamento muito superior aos outros iates.
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Em 1879, o Rei D. Luís inscreveu-o para correr em regatas que iam ter lugar em Nice, mas nelas não participou por ter chegado atrasado, devido ao mau tempo. No regresso, escalou Marselha e aí, numa regata que foi organizada entre aquele porto e o Castelo de If, o Sírius saiu vencedor regressando a Marselha com o avanço de três quartos de hora sobre o iate francês Eugenie. Deixando o Mediterrâneo, passa por Gibraltar ao mesmo tempo que um iate inglês e chega a Lisboa com grande avanço, o que ainda mais concorre para tornar conhecidas as suas qualidades náuticas. Foi durante a sua estadia em Marselha que François Roux, duma famosa família de retratistas de navios, o perpetuou num guache, cuja cópia se encontra no Museu de Marinha.
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O Sírius, que começou por ter duas velas bastardas, mudou, em 1887, a armação para palhabote, mantendo-se assim até ao fim dos seus dias.
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Logo a seguir à implantação da República, este iate foi entregue à Escola Naval, para instrução de aspirantes, onde se manteve até 1931, passando nesse mesmo ano para o Clube Náutico dos Oficiais e Aspirantes da Armada. Em 1953 é cedido à Brigada Naval, para apoio dos cursos de patrão de costa e patrão de alto mar. No ano de 1974 volta à posse da Marinha, onde é utilizado para instrução de cadetes.
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Não é vulgar tal longevidade numa embarcação. Na realidade, o Sírius navegou durante mais de um século, o que constitui um recorde, acabando por ser depositado no pavilhão das galeotas desse belo Museu onde é guardada a Memória da Marinha Portuguesa. Todavia, julgamos que devia ser apresentado com a armação montada, o que parece ser possível se for metido numa doca seca feita no pavilhão onde se encontra.
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Chegou a altura de nos ocuparmos do álbum que foi, afinal, a razão destas despretensiosas linhas.
Tem as dimensões 30 x 22 cm.
Dispondo de uma bela capa de pelica decorada com as armas reais e belas ferragens, debaixo das quais aparece o nome Sirius, tem dentro dela: um esboço desta embarcação com a legenda que nos esclarece que o traço é de D. Carlos e reproduções de duas gravuras do Sírius, extraídas de publicações coevas e desenhos de duas insígnias.
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Oficialidade do Sírius - sentados 1Ten Chagas Roquete e CFR Folque Possolo - de pé 2Ten Rosa, 2Ten Vieira de Sá e um Guarda-Marinha.
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Dispondo de uma bela capa de pelica decorada com as armas reais e belas ferragens, debaixo das quais aparece o nome Sirius, tem dentro dela: um esboço desta embarcação com a legenda que nos esclarece que o traço é de D. Carlos e reproduções de duas gravuras do Sírius, extraídas de publicações coevas e desenhos de duas insígnias.

O Yacht Sírius num deseho de J. Dantas.


Esboço da autoria de D. Carlos.
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Além disso, inclui duas fotografias. Uma representando o próprio D. Luís, sentado numa dessas belas cadeiras, decoradas com motivos náuticos da autoria Pillement, pertencente a uma colecção, que ainda existe no Palácio da Ajuda. Outra mostrando um grupo de oficiais, recordando a oficialidade do Sírius onde se vê Folque Possolo que, já o dissemos, foi responsável pela construção deste iate real.
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Aqui deixamos a notícia de um álbum que foi, muito provavelmente, encomendado e manuseado pelo nosso Rei marinheiro e que serviu para nele serem guardadas algumas recordações do mais belo iate que possuiu, com a esperança de um dia podermos admi-rar o iate e o álbum no nosso Museu.
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Fotos CAB T Carvalho.

A. Estácio dos Reis

CMG
SÍRIUS