Nº 330

 

ABRIL-2000

 

Património Cultural da Marinha

Peças para Recordar

15. O "Sírius"

O Sírius é, sem dúvida, a mais antiga embarcação de recreio existente em Portugal. Foi o rei D. Luís que, em 1876, ordenou a sua construção que teve lugar no telheiro das Galeotas Reais, à Junqueira, sob a direcção do seu oficial às ordens, o capitão-tenente Carlos de Sousa Folque Possolo, tendo como mestres Tomás António Gonçalves, mestre dos carpinteiros de machado do Arsenal de Marinha e Diogo Jorge Batalha, demonstrador de construção da Escola Naval.

 

Foi lançado à água em 14 de Abril de 1877, na presença de Suas Majestades. Após as experiências, e armando em caíque, foi oferecido à rainha D. Maria Pia. O iate dispunha de uma câmara a meia-nau, com sofá à volta, aparadores nos cantos e espelhos nas amuradas. A estibordo, a ré, situava-se a camarinha da rainha e o camarote da sua camareira. A ré da câmara a estibordo, situava-se o camarim do rei e a bombordo o camarote do seu ajudante de campo. No alojamento da proa acomodavam-se o mestre e sete tripulantes.

 

Em 4 de Setembro daquele mesmo ano, fez a sua primeira regata, que foi anulada por falta de vento. Repetida em 11, o Sírius foi desclassificado por transgressão do regulamento. Apesar deste mau começo, o Sírius, em 1879, era considerado o iate de maior andamento que havia no país e, por esta razão, D. Luís decidiu inscrevê-lo para participar nas regatas internacionais de Nice. Infelizmente, devido a mau tempo, a embarcação atrasou-se na viagem, não podendo tomar parte nas competições. Todavia, de regresso a Portugal, arribou a Marselha e aí correu com o iate francês Eugenie, que venceu por uma larga margem. O eco desta proeza chegou a Inglaterra e dois dos melhores iates deste país, a escuna Cetonia e o iole Gestrude, vieram a Lisboa, em Outubro de 1880, para competir com o Sírius, que desta vez não foi feliz.

 

Depois desta data, rareiam as informações, mas sabemos que, em 1887, este iate já armava em palhabote. Em 1912 era entregue à Escola Naval, para instrução de vela dos aspirantes. Em 1931, passou ao Clube Náutico dos Oficiais e Aspirantes da Armada e, no ano de 1953, foi cedido à Brigada Naval para apoio do curso de "patrão de costa" e "patrão de alto mar". Por determinação, datada de Junho de 1974, do Chefe do Estado-Maior da Armada, voltou à posse da Marinha, sendo entregue à Escola Naval.

 

Em 1983 foi depositado no Museu da Marinha, onde é uma das embarcações mais apreciadas pelos visitantes. Todavia, não está exposto como gostaríamos de o ver: metido numa doca seca, para ser possível mastreá-lo. Só assim ganharia a sua verdadeira beleza.

 

O Sírius, durante a sua estadia em França, teve o privilégio de ser pintado por François Roux (1811-1882), um dos mais famosos pintores de Marinha. A pintura original perdeu-se mas, o Museu de Marinha possui nos seus arquivos uma fotografia do quadro original, que reproduzimos, onde se lê a data, o local onde foi feito e o nome do autor.

 

No Museu existe ainda uma bela cópia, feita por autor desconhecido no ano de 1930.

 

Características actuais do "Sírius":

Comprimento fora a fora

22.50 m

Comprimento entre perpendiculares

16.00 m

Boca

3.75 m

Calado máximo

2.85 m

Altura do mastro de traquete

15.85 m

Altura do mastro grande

17.00 m

Arqueação

49 ton.

Museu de Marinha

(Texto A. Estácio dos Reis, CMG)

O ÁLBUM DO SÍRIUS