Nº 333

 

JULHO-2000

 

Património Cultural da Marinha

Peças para Recordar

18. O SEXTANTE DE HORIZONTE ARTIFICIAL DO ALMIRANTE GAGO COUTINHO

Entre as criações científicas portuguesas do século XX, uma das mais notáveis terá sido o sistema de navegação aérea concebido e concretizado pelos comandantes Sacadura Cabral e Gago Coutinho. Um sistema integral, abrangendo os métodos inéditos de cálculo e pré-cálculo e os meios específicos para a resolução da navegação estimada e astronómica. Dois instrumentos fundamentais integraram este conjunto: o Corrector de Rumos e o Sextante de Horizonte Artificial.

Este sextante resultou de uma adaptação do clássico sextante de marinha, realizada em 1919 pelo então CMG Gago Coutinho, mediante a aplicação de um nível de bolha de ar e de um espelho auxiliar para reflectir a imagem da bolha. Este dispositivo permitia assim definir um plano horizontal, à semelhança da prática com nível de pedreiro. A adequada justaposição da imagem de um astro com a bolha do nível equivalia ao clássico trabalho de colocar a imagem do astro sobre o horizonte de mar visível, determinando assim a altura observada do astro. Gago Coutinho desenvolveu inicialmente este trabalho com vista à navegação marítima, nas situações de horizonte de mar não visível, de dia ou de noite.

Aconteceu que nesse ano de 1919 o Comandante Sacadura Cabral tomou a iniciativa de planear uma viagem aérea ligando Lisboa ao Rio de Janeiro, por ocasião do centenário da independência do país irmão, em 1922. Tal ideia implicou desenvolvidos estudos técnicos e logísticos relativos às rotas, tipo de avião e métodos de navegação. E foi neste contexto que decidiu convidar o Comandante Gago Coutinho, seu ex-chefe nas missões geodésicas em África, para colaborar nesses estudos, incluindo a finalização e aperfeiçoamento do sextante de horizonte artificial, elemento indispensável para a navegação astronómica aérea.

Na mesma época existiam já dois modelos ingleses e um americano de horizonte artificial, tentativamente utilizados em navegação aérea, não muito bem aceites pelos navegadores. O sistema de Gago Coutinho trouxe, porém, uma inovação genial, que facilitou grandemente a prática das observações e melhorou o rigor das leituras. Essa inovação consistiu em utilizar um nível cujo raio de curvatura era exactamente igual à distância entre o olho do observador e a imagem virtual da bolha no espelho auxiliar. Desta simples subtileza geométrica resultava que as oscilações angulares do sextante devidas à instabilidade do navio (ou avião) eram iguais às deslocações angulares da bolha. A leitura da altura do astro não era afectada por essas oscilações, desde que se mantivesse a respectiva imagem coincidente com a bolha, sem sujeição a qualquer outra referência fixa, como era o caso dos modelos estrangeiros.

O modelo Gago Coutinho permitia também efectuar observações sobre horizonte de mar, o que o autor recomendava, sempre que possível.

A partir de centenas de observações com horizonte artificial, em terra e em voo, Gago Coutinho determinou o erro médio de ± 10` para uma leitura isolada, e ± 3`para a média de 7 leituras consecutivas. Por isso o seu autor lhe chamou "astrolábio de precisão".

A firma alemã Plath produziu em série, com a anuência graciosa de Gago Coutinho, um modelo baseado naquele original, no qual foram introduzidos pequenos ajustamentos propostos pelo Capitão Navegador Jorge de Castilho, designadamente a mudança da pega do lado direito para o esquerdo e a melhoria da iluminação da escala e da bolha

O sextante original utilizado por Gago Coutinho nos voos históricos com Sacadura Cabral em 1921 de Lisboa ao Funchal e em 1922 na 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul, é hoje uma das mais valiosas relíquias do nosso Museu de Marinha, estando em exposição juntamente com o Corrector de Rumos, próximo do hidroavião Santa Cruz, que finalizou a histórica Travessia Aérea.

 

Museu de Marinha

(Texto - Comte. A. J. Silva Soares,

Aviador Naval)