Nº 354

 

JUNHO - 2002

Património Cultural da Marinha

Peças para Recordar


39. O Projector Principal do Planetário

A recente assinatura de um protocolo entre a Marinha e o Ministério da Ciência e da Tecnologia com vista à substituição do projector principal do Planetário Calouste Gulbenkian, veio colocar este equipamento no lote das “Peças para Recordar”, de que tanto nos orgulhamos, quer pela sua capacidade de criar ambientes impares, quer pela sua ligação à história da divulgação científica em Portugal.

Não se trata de uma peça de arte, nem de particular grandiosidade estética. No entanto, todos os que visitaram o Planetário, e já foram mais de 3 milhões, sentiram-se certamente impressionados pelo aspecto, algo intimidatório mas vanguardista do projector ZEISS Mod IV instalado em 1965.

Ele é de facto o coração do Planetário, pois através da sua operação, consegue-se simular, com grande realismo, a beleza de um céu imaculadamente estrelado, os diferentes aspectos da esfera celeste, variáveis no tempo e no espaço, e os diferentes movimentos da Terra e dos  outros planetas do Sistema Solar.

O objectivo de qualquer planetário é trazer à Humanidade o antigo gosto em observar o céu estrelado, compreender a harmonia  e o sistema do Universo, sem se ser perturbado pela poluição atmosférica ou luminosa, nem se estar sujeito a condições de nebulosidade. Um Planetário permite uma compressão de tempo, de tal ordem, que dias, anos e mesmo milhares de anos, se transformam em minutos e segundos.

Os primeiros modelos, em volume, da representação da esfera celeste, surgiram antes do nascimento de Cristo, inventados por Arquimedes, Possidónio e Boécio. Mas na realidade, modelos expressivos do céu não poderiam ser materializados antes do sistema universal de Ptolomeu (cerca de 150 DC), o qual fixava, como centro do mundo, o globo terrestre imóvel e que só foi ultrapassado pelo sistema do famoso astrónomo Nicolau Copérnico (1473 - 1543), depois de ter vigorado durante cerca de 1400 anos.  A partir daí, foram construídos todas as espécies de planetários, como Astrolários, Telúrios e Lunários. Também a destacar, o relógio artístico-astronómico de Schwilgue da catedral de Estrasburgo e os enormes globos celestes, como o de Goltorp, com um diâmetro de 3,5 m, construído durante a segunda metade do século XVII.

O Planetário Coperniquiano do Museu de Munique, construído em 1924 levou ao posterior desenvolvimento dos planetários mecânicos. Os modernos planetários de projecção têm uma raíz comum, no modelo I construído em 1923 pela fábrica ZEISS de Jena na Alemanha.

Foi o desejo de poder projectar céus estrelados de todas as latitudes geográficas, do Pólo Norte ao Sul, que levou à instalação dos projectores planetários em salas adequadamente em forma de cúpula semi-esférica, simulando, o seu interior a esfera celeste.

Assim, a partir dos anos 40 começaram a ser construídas estas infra-estruturas nas principais capitais europeias. Lisboa não fugiu à regra, e em 1965 foi instalado um moderno Planetário cujo projector principal foi custeado pela Fundação Calouste Gulbenkian, através de uma doação de cerca de 7700 contos. Ao Estado coube a construção da infra-estrutura, no valor de 4500 contos, ficando a sua manutenção e operação entregue à Marinha que já suportou cerca de 2 milhões de contos até hoje, a preços actuais.

Com esta construção harmoniosamente enquadrada no complexo museológico dos Jerónimos, a par do Museu de Marinha e numa zona tão emblemática como Belém, satisfazia-se uma velha aspiração da Sociedade Astronómica de Portugal, fundada em 1917, ao mesmo tempo que se concretizava o antigo sonho de um ilustre oficial de Marinha e brilhante astrónomo-amador, o Comandante Eugénio Conceição Silva.

O seu espírito inventivo e meticuloso contribuíram decisivamente para a instalação no nosso país de um moderno aparelho de projecção que permitia visualizar a esfera celeste em qualquer lugar e em qualquer momento, constituindo um magnifico instrumento didáctico ao alcance de todos, permitindo desse modo uma ampla divulgação da ciência astronómica a um povo com uma tradicional vocação de descoberta, ou não tivessem os nossos navegadores conseguido descobrir novos mundos com base na navegação astronómica.

O projector ZEISS, modelo IV, é um projector óptico-mecânico fisicamente constituído por um corpo cilíndrico com uma grande esfera em cada uma das extremidades. No interior de cada uma destas esferas está instalada uma lâmpada de 1000 W rodeada por oito lentes semi-esféricas. Na face plana destas existe um filtro opaco com orifícios rigorosamente dimensionados e localizados. É a projecção, na cúpula, da luz que passa por esses orifícios, que representará o céu estrelado.

No corpo cilíndrico encontra-se um projector para os astros móveis, isto é, todos aqueles que ao longo do tempo vão variando as suas posições relativamente às estrelas, essas sim, astros fixos. Assim, com este projector representam-se o Sol e os 5 planetas do Sistema Solar mais próximos da Terra e, que são observáveis à vista desarmada. Outros projectores, considerados independentes, mas solidários com o projector principal permitem a representação da Via Láctea, de estrelas variáveis,  de núvens, da órbita descrita pelo cometa Donati, para além das linhas e planos de referência como o equador celeste, a eclíptica, o meridiano do lugar, estes mais usados em apresentações técnicas dedicadas à astronomia de posição. No topo de cada uma das grandes esferas referidas são visíveis outras 2 pequenas esferas que se destinam à projecção dos nomes das constelações celestes.

Considera-se que nas melhores condições de visibilidade é possível observar à vista desarmada cerca de 6000 estrelas. O projector ZEISS – Mod. IV permite a projecção de cerca de 7200.

Este conjunto dispõe de vários graus de liberdade de movimento permitindo a simulação dos movimentos de rotação e translação da Terra, que originam a sucessão dos dias e das noites e as estações do ano e ainda do movimento de precessão que permite mostrar o diferente aspecto do céu para uma qualquer data á escolha dentro de um período aproximado de 26000 anos. Outro grau de liberdade permite variar a posição do observador na superfície terrestre possibilitando a viagem do pólo Norte ao pólo Sul.  Desta forma conseguem-se visualizar estrelas e constelações que não são visíveis em Portugal.

O projector está instalado no centro de uma sala circular, com 330 lugares sentados, encimada por  uma cúpula de 23 metros de diâmetro, constituindo um dos maiores planetários do Mundo. Apesar de já ter atingido o limite da sua vida útil estabelecido pela Zeiss, e apresentar evidentes sintomas de cansaço, depois de mais de 37 anos de trabalho ininterrupto continua, ainda assim, a mostrar um magnífico céu estrelado.

Com previsão da sua substituição para o final de 2003, o velho Planetário é merecedor de descanso em lugar de honra e será não só visto como Património Cultural da Marinha, mas também continuará a ser olhado com a mesma admiração e respeito a que sempre esteve habituado.

 

     Planetário Calouste Gulbenkian

(Texto de Conf. Teresa Barbosa, CTEN Proença Mendes e CFR Franco Facada)