Nº 359

 

Dezembro-2002

 

Património Cultural da Marinha

Peças para Recordar

44. O Saveiro “Meia-Lua” da Caparica

O Saveiro “Meia-Lua” da Caparica

De entre as embarcações que se encontram expostas no exterior do Museu de Marinha há uma que se destaca pela sua beleza e pelas suas próprias características - é o Saveiro “Meia Lua” da Caparica.

O “barco meia-lua”, que tem grandes afinidades com os barcos da região de Aveiro, foi introduzido na Caparica cerca da metade do século XVIII. É uma embarcação mais pequena que o “barco do mar” da costa de Aveiro e possui linhas que são muito diferentes das deste, sendo levantadas abruptamente as duas extremidades, em vez de ter somente a sua proa lançada para cima e longamente projectada. O fundo chato do “meia-lua” que é muito arqueado eleva-se para as curvas da proa e da popa criando um perfil em crescente, o que dá o nome à embarcação.

Cada “meia-lua” era manobrado por uma “companha” ou associação de pescadores que vieram sobretudo de Lavos e Buarcos para tomar parte numa forma particular de arrasto com rede de cerco. Alguns dos homens que trabalhavam nesta ocupação eram também do Algarve. A “companha” era constituida por duas equipas; uma que embarcava e manobrava a rede e os seus acessórios e uma outra, em terra, que lançava a embarcação, recolhia a rede para a praia e recuperava a embarcação quando esta regressava.

Os “meias-luas” eram antigamente construídos em Ovar pelo construtor Bernardino Gomes. Eram muito mais pequenos do que o “barco do mar” que pode, ainda hoje, ser encontrado em Aveiro. Os primeiros barcos eram, apesar de tudo, bastante grandes: o seu comprimento era de 10,80 metros e a sua boca 2,85 metros,como está representado num modelo da Colecção Seixas no Museu de Marinha, construído à escala de 1:25, cujas linhas e plano de construção foram retirados por José Pessegueiro Gonçalves em 1920 de uma embarcação existente denominada “SEMPRE VIM”. Estas grandes embarcações eram construídas com quatro bancadas para os remadores e as posteriores, mais pequenas, e em menor número, que mediam 8,50 x 2,40 metros aproximadamente, eram construídas com três. A parte de ré do casco era deixada aberta para permitir espaço no qual era alojada a rede, as suas numerosas poitas e flutuadores de cortiça e os cabos de puxar.

Nos tempos antigos, alguns “meias-luas” eram aparelhados com vela e leme do tipo “xarolo” para a pesca no Rio Tejo, para vender o peixe nos mercados da margem norte.

A construção do casco de encolamento vivo do “meia-lua”, as suas extremidades elevadas e o estilo de representação do olho pintado em cada lado da proa, congregados, apontam para uma origem na Ria de Aveiro; mas a origem mais provável dos barcos daquela região reside nos barcos da Mesopotamia, conforme mostra uma miniatura em prata encontrada por Leonard Wooley na sua escavação de uma das tumbas reais em Ur e nos barcos do povo Madan que vive na área pantanosa entre os rios Tigre e Eufrates no Iraque. A difusão a partir daí deve ter tido lugar através do Levante, pois na altura, os marinheiros de Tiro devem ter continuado para Oeste de modo a formar uma sólida ligação com a Europa Atlântica até à ocupação Assíria do Próximo Oriente.

O estilo dos olhos nas proas é diferente daqueles que eram usados pelos Egípcios, pelos Gregos e pelos Romanos.

 

O “meia-lua” era transportado para a borda de água por todos os homens da “companha” que levavam aos ombros uns paus atravessados por cima do barco com esta finalidade. Para ser lançado à rebentação, sem virar, eram necessárias três coisas: uma vara nas mãos do homem da proa ou “vareiro” que resistia ao impulso lateral da corrente que nele actuava; uma vara por baixo da popa, segura por alguns homens do grupo de terra, de um lado ou do outro do barco conforme  necessário; e um cabo com um gancho passado a um anel a ré e puxado na direcção oposta. O barco era então empurrado para a onda e iniciava a progressão com as remadas, guiado por um remo montado a estibordo a ré. A tripulação consistia no homem da proa (proeiro), seis a oito remadores, um homem a vante para guiar a “arte de arrastar para terra” ou “xávega” assim que esta era lançada pela borda, e o homem do leme que era o patrão e norma1mente o dono da embarcação. O aparelho de pesca era uma rede de arrasto, lançada em semicírculo de maneira que concentrasse o peixe, normalmente sardinha, e depois trazê-lo para a praia. A rede usada mais recentemente era a “rede da tartaranha” que consistia num saco e a sua cuada e dois longos braços puxados manualmente para cima, por cabos.

Em 1948 existiam 14 “Meias Luas” na Caparica, mas o seu número foi descendo, podendo em 1970 serem contados pelos dedos de uma mão. Prevendo o seu rápido desaparecimento, o Museu de Marinha adquiriu em Junho de 1975 um exemplar que se encontra exposto junto à entrada para o Planetário e onde o visitante pode admirar as suas belas formas e toda uma arte que se vai extinguindo. 

Museu de Marinha

(Texto de Dr. Manuel Leitão, Membro da Academia de Marinha)