O Farol e a Ermida da Guia

O Farol da Guia

O Cronista de D. Manuel, Damião de Góis, na obra "Lisboa de Quinhentos", datada de 1554, descreve a costa desde o Cabo da Roca ao Forte de S. Julião: "Mais para dentro, a pequena distância, no extremo da abertura do estuário de Lisboa, assenta sobre cachopos uma ermida, dedicada a Nossa Senhora chamada da Guia. À noite acendem ali uns fachos para indicar a trajecto aos mareantes, não seja caso que estes por não lobrigarem a passagem, arremessem contra vontade as naus para os baixios e rochedos".

Facho ou fogaréu, era uma concha ou caldeirinha de ferro, pendurada por uma corrente num pau cruzado com outro, onde ardiam umas pinhas, estopa embebida em óleo, ou qualquer outro combustível. Eram assim as primeiras marcas luminosas da costa portuguesa.

Por decreto datado de 10 de Dezembro de 1570, D. Sebastião estabeleceu o serviço de vigia nos vários locais costa portuguesa. No entanto, segundo alguns autores, o Farol da Guia iniciou o seu funcionamento ainda em 1537, tendo sido o segundo de toda a costa, uma vez que o primeiro a ser construído, embora em forma rudimentar, foi o da Ponta de Sagres, com a alimentação a lenha, azeite ou bebida em óleo..

Quando do terramoto de 1755 ficou muito danificado, tendo-se iniciado a sua reconstrução em 1767, com a alimentação das luzes a ser produzida por azeite. Mais tarde, já no fim do século XVIII construiu-se um gasómetro cujas paredes ainda hoje existem, embora arruinadas. Começou-se então a utilizar gás. Em 1810, foi novamente reconstruído pela Junta do Comércio, sob cuja direcção se encontravam os faróis.

Com o aparecimento da electricidade passaram os faróis a ser electrificados e o da Guia foi o segundo a usar este novo tipo de sinalização.

A Ermida da Guia

Frei Agostinho de St.ª Maria, na sua obra "Santuário Mariano", refere-se ao compromisso da Guia pelos anos de 1522. Em 1523, foi erigida a confraria, cujo compromisso ofereceram ao Cardeal D. Afonso.

O Reitor da igreja Matriz de Cascais, Manuel Marçal da Silveira, refere-se assim à romagem da Senhora da Guia: " Foi antigamente mui célebre a sua romaria, (...). Vinha de Lisboa uma procissão toda forrada, e pé, por terra, sendo o espaço de 5 léguas, e celebravam a festa com o demais povo de Cascais que se lhe juntava com muitas invenções de fogo, danças e comédias, fazia-se esta procissão por voto de um bairro de Lisboa por causa da peste. Depois esfriando mais este fervor, vinha o povo por mar em barcos e aqui na Vila desembarcando se formava então a procissão para a Guia até que cessou de todo, e somente alguns devotos vinham fazer a festa naquele dia, o que conservou por muitos anos, com grande empenho e zelosa devoção de Manuel Velho e Francisco Velho seu irmão, assistentes em Carnide, que enquanto viveram não faltaram nunca a solenizar este dia com profusão e grandeza digna de memória".

Em 1570, fixou-se em Cascais, António Ribeiro da Fonseca, homem muito devoto e possuidor de fortuna. Depois de prévio entendimento com a irmandade de Nossa Senhora da Guia e com o senhor de Cascais ao tempo D. António de Castro, procedeu Ribeiro da Fonseca à demolição da Ermida, que foi reconstruída em 1573, edificando à sua custa, o pequeno templo que ainda hoje existe, bem como os seus anexos.