Nº 332

 

JUNHO-2000

 

Património Cultural da Marinha

Peças para Recordar

17. A Fragata "D. Fernando II e Glória"

Só pode ser potência naval dominante a nação que, na época, liderar o conhecimento científico e tecnológico ligado ao uso do mar. Portugal foi a potência naval dominante no início da era dos grandes veleiros porque os desenvolvimentos extraordinários e revolucionários na navegação oceânica à vela, no tempo de Vasco da Gama, ultrapassaram muito o que as outras Marinhas, durante cerca de século e meio, foram capazes de inovar para conquistar o senhorio dos mares.

A fragata "D. Fernando II e Glória" é um autêntico padrão da nossa História. Sendo o último grande veleiro construído em boa madeira de teca no Real Arsenal de Damão, marca bem o fim da época em que a vela dominou os mares. Quando foi construída, em 1832, já existiam vapores. No entanto, navegou 100.000 milhas, durante 35 anos, em competição com a máquina sem nunca por ela ter sido destronada. As missões que lhe foram atribuídas são disso prova irrefutável. Esteve três vezes na Índia, foi três vezes às Ilhas Adjacentes e três vezes a Angola e Moçambique, tendo sido, numa destas viagens, o navio-chefe da operação de reocupação do Ambriz.

Desde o seu lançamento à carreira até ser considerada sem utilidade para a Marinha de Guerra, em 1939, decorreram 107 anos. Mais tarde, ainda foi a sede de uma Obra Social para formação de rapazes mais desfavorecidos.

Foi construída segundo um desenho que a Marinha Imperial inglesa copiou, o que mostra o alto nível do nosso conhecimento e o valor dos nossos técnicos de construção naval.

Foi a última nau da era da Carreira da Índia e, na viagem de 1861 a 1863, o último grande veleiro a armar em charrua. Bastante mais curto foi o período seguinte dos grandes paquetes das carreiras regulares de passageiros e correio. Aliás, a D. Fernando assistiu ao nascimento e morte dessas carreiras, uma vez que elas foram inauguradas pelo Great Western em 1838, seis anos após o início da sua construção, e a Flâmula Azul, prémio a atribuir à mais rápida travessia do Atlântico, foi concedida pela última vez em 1952, ao United States. A fragata sofreu o incêndio que quase totalmente a destruiu em 3 de Abril de 1963, cem anos após a última viagem e, em 1967, quatro anos depois do desastre, o Queen Mary, famoso transatlântico, fez a sua última viagem.

Portugal, que foi grande pela maneira como o seu povo soube usar o mar e pela coragem com que o fez, tinha que preservar e manter para as gerações vindouras este último símbolo de tão notável epopeia. A fragata D. Fernando é considerada um monumento. Não só porque evoca uma data ou um feito, mas porque teve vida própria e escreveu algumas páginas da nossa História.

Ao Almirante António Manuel de Andrade e Silva se deve a ideia do projecto de recuperação do navio e depois a extraordinária firmeza da sua prossecução. Da fragata restava uma parte do costado enterrada no lodo e esquecida há 25 anos. Foi preciso informar, recordar, convencer, valorizar e obter muitos apoios para lançar o empreendimento em que poucos acreditavam.

Por fim, os mecenas surgiram. Os estaleiros responsáveis foram a "Ria-Marine" do mestre Alberto da Costa, Aveiro, e o Arsenal do Alfeite. Mas muitos outros, militares e civis, competentes profissionais ou interessados amadores, deram o seu contributo permitindo que se concretizasse o restauro com a beleza e o rigor que hoje nos apraz observar.

Em 26 de Fevereiro de 1998 o Conselho de Ministros reuniu a bordo da fragata D. Fernando e, no dia 28 de Abril, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada como Unidade Auxiliar de Marinha e Navio-Museu. A sua primeira "missão" pós-restauro foi servir de Pavilhão das Comunidades na EXPO’98. No primeiro ano foi visitada por cerca de um milhão de pessoas.

No dizer do Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, a fragata D. Fernando é "um símbolo magnífico da nossa relação com o mar"... "um belo Museu para deleite de todos e, sobretudo, para a formação histórica dos mais jovens".

António Emílio Ferraz Sacchetti

VALM